Brasil – Duas estudantes de Biotecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) desenvolveram uma solução inovadora e sustentável para combater incêndios florestais, agora concorrendo a um importante prêmio internacional.
O retardante de chamas, chamado de BIODEFENSER®, é elaborado a partir de um composto natural, favorecendo tanto a contenção de incêndios quanto a recuperação ambiental. As estudantes, Mariah Fraulo Cavalcante e Taciane Beatriz Ferreira, venceram as etapas regional e nacional do Hult Prize 2026 e agora se preparam para a fase internacional, sendo as únicas a representar o Brasil.
O Hult Prize é a maior competição de empreendedorismo estudantil do globo, frequentemente referida como o “Prêmio Nobel para Estudantes”. Promovida pela Hult International Business School, a competição desafia universitários a criarem startups que resolvam problemas globais urgentes de maneira lucrativa.
A equipe vencedora receberá um investimento de US$ 1 milhão para iniciar seu negócio. Este ano, 18 mil equipes se inscreveram na competição mundial. Depois de assegurar uma vaga na fase nacional em São Paulo, o time de Mariah e Taciane destacou-se ao conquistar o primeiro lugar.
“Seriam 90 vagas na etapa nacional, com equipes de todo o mundo. E a gente também ganhou, em primeiro lugar. Viramos o time que representa o Brasil nessa competição. Estamos entre as 90 melhores e seguimos com nosso projeto”, comemorou Mariah.
Solução Sustentável para Incêndios
Mariah cresceu num ambiente próximo a incêndios florestais, já que seu pai possui uma empresa dedicada à detecção dessas ocorrências. Desde pequena, ela questionava: “A gente sempre monitora, mas o que impede os incêndios?”. Sua preocupação com a sustentabilidade a levou a buscar alternativas para os produtos químicos frequentemente utilizados, que podem ser prejudiciais ao meio ambiente.
“Sempre tive o sonho de fazer algo impactante para o meio ambiente, algo que realmente fizesse a diferença”, destacou Mariah, numa entrevista recente. No final de 2024, o projeto do BIODEFENSER® começou a ganhar vida durante o evento Health Innovation PUC-PR (HIPUC). O projeto foi o vencedor do concurso e escolhido como pesquisa no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI), orientado pelo professor Luiz Fernando Bianchini.
“Pesquisei muito para fundamentar meu projeto e percebi que não havia nada na internet a respeito”, afirmou Mariah. Com o apoio do professor, eles apresentaram um projeto de iniciação científica que foi aprovado, permitindo que Mariah utilizasse os laboratórios da universidade para desenvolver o produto.
Produção e Eficácia do BIODEFENSER®
A estudante então se inscreveu no Programa Institucional de Bolsas de Empreendedorismo e Pesquisa (PIBEP) da PUC-PR, ficou em primeiro lugar e garantiu seu primeiro investimento de R$ 10 mil, cerca de US$ 2 mil, que foram usados para adquirir materiais e equipamentos necessários para protótipos iniciais.
Mariah explicou que incêndios florestais se espalham em segundos e há várias maneiras de combatê-los. Como exemplo, na Califórnia, foi utilizada a pulverização de compostos químicos tóxicos, que mostrou-se ineficaz. Portanto, a equipe está desenvolvendo uma formulação biológica que não agride o meio ambiente, mas que é capaz de conter o fogo.
Até agora, os testes em laboratório mostraram que o produto pode apagar chamas, embora ainda não tenha sido testado em grande escala. “Temos planos para fazer uma pilotagem maior já no próximo mês”, revelou Mariah, que espera inserir o produto no mercado ainda neste ano.
Os incêndios florestais de 2024 foram responsáveis pela emissão de 8,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂), conforme dados do relatório â State of Wildfires, monitorado pelo Serviço de Monitoramento da Atmosfera Copernicus (CAMS). O prejuízo financeiro superou os US$ 250 bilhões.
“Esse é um problema global imenso. Queremos que o maior número de pessoas se una a nós na luta contra os incêndios, especialmente porque temos uma solução que não prejudica nosso planeta e que está mostrando eficácia”, comentou Mariah. Além disso, elas pretendem validar a eficácia do produto junto à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para comprovar a segurança ambiental da tecnologia.
Perspectivas Futuras
O professor Luiz Fernando Bianchini, orientador das estudantes, destacou que a ideia deste projeto surgiu de Mariah. Quando a pesquisa foi inscrita no Programa de Iniciação Científica, ele imediatamente percebeu seu grande potencial comercial. “Isso poderá se tornar um produto com um grande potencial no mercado”, enfatizou.
O apoio obtido do concurso internacional pode viabilizar o desenvolvimento aprimorado do produto, assim como a criação de uma empresa para sua produção.
“Ainda precisamos buscar parcerias para pipocar o desenvolvimento do produto. Estamos no caminho certo com isso”, comentou. A Embrapa Florestas já ofereceu apoio para testes de campo e análise de resíduos do produto, que, sendo um biopolímero, pode atuar como um fertilizante, ao contrário dos compostos utilizados atualmente, que são tóxicos.
A Universidade Federal do Paraná (UFPR) também poderá colaborar usando uma câmara de combustão para testar a eficácia do retardante em condições mais reais. O objetivo inicial é completar todos os testes na PUC-PR, garantindo a melhor formulação e eficiência antes de formalizar parcerias públicas para ampliar as pesquisas.
O produto deverá ser fabricado pela iniciativa privada, em sinergia com um laboratório especializado. Em andamento, Mariah e Taciane buscam criar uma spin-off, uma startup originada dentro da PUC-PR, visando a patente do produto e a criação de sua empresa. Além disso, poderão licenciar a tecnologia para outras empresas ou laboratórios, mantendo participação societária.
Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil contou com 10.442 focos de incêndio, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), refletindo uma tendência global de incêndios florestais. A proposta das estudantes está alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, criando uma barreira térmica que reduz a propagação das chamas, permitindo um controle mais eficaz e sustentável.
A tecnologia não só combate o fogo, mas sua ação se estende após a aplicação, formando uma camada bioativa que fortalece o solo, retardando o surgimento de novos incêndios. “O produto não causa danos e ainda economiza na água que seria usada em incêndios”, concluiu Mariah.

